terça-feira, 5 de setembro de 2017

O Uso das Velas na Igreja Ortodoxa


Pergunta: Por que acendemos velas na Igreja Ortodoxa?

Resposta: Tipicamente existem dois tipos de velas com as quais os ortodoxos estão familiarizados. Primeiro, existem as genuínas velas de cera de abelha puras, feitas a partir dos pentes das colmeias. Em segundo lugar, existem as velas de parafina feitas a partir de petróleo. Quando os Padres da Igreja falam sobre o uso ortodoxo das velas, eles estão se referindo às velas de cera de abelha pura e não às estas últimas. A cera de parafina produz substâncias cancerígenas e fuligem quando queimadas. Na verdade, um pesquisador de qualidade do ar afirmou que o fuligem de uma vela de parafina contém muitas das mesmas toxinas produzidas pela queima de combustível diesel.

Com esta informação em mente, podemos entender melhor as seis representações simbólicas de velas acesas, transmitidas por São Simeão de Tessalônica:

1. Como a vela é pura (cera de abelha pura), também os nossos corações devem ser puros.

2.  Como a vela pura é flexível, então também nossas almas devem ser flexíveis até tornarem-se retas e firmes.

3. Como a vela pura é derivada do pólen de uma flor e tem um cheiro doce, então também nossas almas devem ter o aroma doce da Graça Divina.

4. Assim como a vela, que quando queima, mistura-se e alimenta a chama, também nós podemos lutar para alcançar a theosis.

5. Como a vela ardente ilumina a escuridão, a luz de Cristo dentro de nós também deve resplandecer diante dos homens, para que o nome de Deus seja glorificado.

6. À medida que a vela dá luz própria para iluminar uma pessoa na escuridão, também a luz das virtudes, a luz do amor e da paz, caracterizam um cristão. A cera que derrete simboliza a chama do nosso amor pelos nossos semelhantes.

Além das seis representações simbólicas acima, São Nicodemos, o Hagiorita, nos dá seis razões diferentes pelas quais as velas ortodoxas queimam:

1. Para glorificar a Deus, que é Luz, enquanto cantamos na Doxologia: "Glória a Deus que nos mostrou a luz ..."

2. Para dissolver a escuridão da noite e para banir o medo que é provocado pela escuridão.

3. Para manifestar a alegria interior de nossa alma.

4. Para dar honra aos santos de nossa Fé, imitando os primeiros cristãos dos primeiros séculos que acenderam velas nos túmulos dos mártires.

5. Para simbolizar as nossas boas obras, como o Senhor disse: "Deixe a sua luz brilhar diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus".
O sacerdote também nos dá esta missão após o nosso batismo.

6. Para que nossos próprios pecados sejam perdoados e queimados, bem como os pecados daqueles para quem oramos.

Por todas estas razões citadas por nossos Santos Padres, vamos sempre acender nossas velas e garantir o máximo possível de serem velas puras. Devemos abster-nos de toda corrupção e impureza, para que todo o simbolismo acima seja realizado em nossas vidas cristãs.

Em um momento durante a Divina Liturgia dos Dons Pré-Santificados, o liturgista mantém uma vela acesa, e de frente para as pessoas ele proclama: "A luz de Cristo brilha sobre todos". Cristo é "a verdadeira luz que ilumina e santifica todos os homens".
Somos dignos de receber essa luz? Os próprios santos buscavam constantemente essa luz. Deixe-nos então também imitar os santos e, como São Gregório Palamas, continuamente implorar ao Senhor com as seguintes palavras: "Ilumine minha escuridão".

Pergunta: Existe alguma outra razão pela qual acendemos nossa vela na igreja?

Resposta: Além das razões espirituais mais elevadas mencionadas acima sobre os motivos de acendermos velas, há outra razão mais simples e prática: fazer uma oferta financeira à igreja. Quando vamos acender nossa vela, também devemos oferecer uma oferta para os vários serviços e despesas da igreja. A igreja nos dá a vela como uma benção para a nossa oferta e nos permite inflamar a chama dos simbolismos mencionados acima.

Pergunta: Devemos acender velas fora da igreja também?

Resposta: É bom e louvável acender velas em casa quando oramos, quando o sacerdote visita uma casa para bênção com água benta ou unção sagrada, e até acender uma vela quando visitamos o túmulo de um ente querido.

Pergunta: Existe alguma outra finalidade para a vela?

Resposta: Quando iluminamos uma vela na igreja, estamos fazendo uma oferta à igreja ou à um ícone particular para embelezá-lo, e mostrar através da luz física a simbolização da luz incriada da casa de Deus ou do santo retratado no ícone. Também é costume que os fiéis ofereçam velas de cera de abelha pura na Consagração de uma nova igreja.

Por John Sanidopoulos

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Sobre o Fogo do Inferno


Mas o que é o fogo que faz os pecadores queimarem? - Antes de tudo, é o mesmo fogo que iluminará os justos desde o dia "quando todos os feitos, bons e maus, serão testados pelo fogo", como lemos no Cânon ao Anjo da Guarda; este fogo é como o forno caldeu: "Um forno que, uma vez na Babilônia, por decreto divino, dividiu sua ação, queimando os caldeus, mas refrescando os fiéis". O fogo queima a madeira, o feno e a palha, mas limpa o ouro e a prata. Os pecadores serão lançados "em uma fornalha de fogo: e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. (Mateus 13:42,43). Do mesmo modo, o apóstolo Paulo fala sobre um e o mesmo fogo - o toque divino - que influencia diferentes almas de uma maneira diferente: A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um.Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo. (1 Coríntios 3:13-15)
Nesse sentido, o Senhor é chamado de fogo consumidor no Antigo e no Novo Testamento. Isaías O chama de fogo eterno, chama eterna, que queima os pecadores: "Os pecadores de Sião se assombraram, o tremor surpreendeu os hipócritas. Quem dentre nós habitará com o fogo consumidor? Quem dentre nós habitará com as labaredas eternas?O que anda em justiça, e o que fala com retidão; o que rejeita o ganho da opressão" e mais (Isaías 33:14,15)

Você não quer dizer que a sorte dos justos e dos pecadores será a mesma se olhada à parte: sendo o estado de visão constante de Deus e a impossibilidade de se esconder dEle, que por um lado, será a fonte do prazer para uns, e para os outros será a tortura, provenientes de seus do ódios e da raivas impotentes de realização? Ou queres dizer que o fogo eterno é nada além da presença divina, que é tão difícil de suportar pelos inimigos?

Eu não quis dizer este "nada além", mas quis dizer "em primeiro lugar". Para dizer "nada além" só será possível no caso de  alguém comparar o fogo eterno com fogo material da lenda da igreja (e a lenda da igreja é tão sagrada para nós, como as palavras da Bíblia sagrada), e somente se for possível juntar essa ideia com a verdade incontestável sobre a ressurreição do corpo, tão preciosa para a maioria dos cristãos antigos e obviamente revelada a nós através da Palavra de Deus.

Mas, no vasto curso da dogmática, não há expressão dos santos pais sobre o fogo material no inferno. Mas, certamente, não queremos negar a presença de torturas físicas lá, - é mais fácil falar sobre a alma em relação à vida futura do que em relação ao corpo ressuscitado, pois também nesta vida o aspecto espiritual é mais compreensível para nós do que o da carne e da matéria, como afirma corretamente um filósofo russo que faleceu há algum tempo atrás. Ninguém poderia ainda definir o que é a matéria, e mais difícil ainda de imaginar, quais qualidades de matéria definitivamente permanecerão na carne ressuscitada.

Metropolita Antônio Khrapovitsky 

Nota do Tradutor: Como mostrado no ícone acima, tanto o fogo que queima os pecadores, quanto a luz fulgurosa que ilumina os santos, os deuses pela graça, procedem do Cristo. 

domingo, 27 de agosto de 2017

"Se Palamas é um Santo, então deixe-o nos afogar"


Segue uma história contada pelo Patriarca Nectário de Jerusalém (1660-1669) demonstrando a horrível tolice que é a blasfêmia contra a Igreja e seus santos, prática que infelizmente é comum até os dias atuais nos círculos de propaganda anti-ortodoxa. 

"Uma vez em Thera (Santorini, Grécia), no dia da comemoração de São Gregório Palamas, o Segundo Domingo do Grande Jejum, alguns latinos estavam navegando em um determinado barco para recreação.
Eles colocaram seus filhos em um barco separado, os quais então começaram a bater as mãos e dizerem: "Anátema para Palamas! Se Palamas é um Santo, então deixe-o nos afogar." Com tais coisas, os pequenos francos blasfemavam. Ao mesmo tempo em que diziam isso, sem um único distúrbio das águas, e em um clima calmo, o barco afundou junto com todos aqueles que estavam nele. Isso aconteceu por causa da blasfêmia que eles proferiram, dizendo: "Se ele é um Santo, deixe-o nos afogar". E enquanto os corpos dos blasfemos se afundavam no oceano, suas almas profanas caíam no fogo eterno do inferno, confirmando a santidade do divino Gregório."


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A Transfiguração do Senhor (Hieromonge Serafim Rose)

Mosaico da Transfiguração 
Quarenta dias antes de ser entregue a uma morte ignominiosa por nossos pecados, nosso Senhor revelou a três de seus discípulos a glória de Sua Divindade.

"Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os levou, em particular, a um alto monte. Ali ele foi transfigurado diante deles. Sua face brilhou como o sol, e suas roupas se tornaram brancas como a luz." (Mateus 17:1,2) Este foi o evento ao qual o Senhor se referiu quando disse, "alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino."(Mateus 16:28). Desta forma, a fé dos discípulos foi fortalecida e preparada para o julgamento, paixão e morte que se aproximavam de nosso Senhor; e eles estariam dispostos a ver nele não um mero sofrimento humano, mas a paixão inteiramente voluntária do Filho de Deus.

Os discípulos viram também Moisés e Elias conversando com o nosso Senhor e, assim, entenderam que Ele não era o próprio Elias ou algum outro profeta, como alguns pensavam, mas era alguém muito maior: Aquele que poderia invocar a Lei e os Profetas para serem Testemunhas dEle, já que Ele era o cumprimento de ambos.

As três parábolas da festa dizem respeito à manifestação de Deus para Moisés e Elias no Monte Sinai, pois é apropriado que os maiores videntes de Deus do Antigo Testamento estejam presentes na glorificação do Senhor em Seu Novo Testamento, vendo pela primeira vez a Sua humanidade, assim como os discípulos estavam vendo pela primeira vez Sua Divindade.

A teologia ortodoxa vê na Transfiguração uma prefiguração da Ressurreição do Senhor e Sua Segunda Vinda, e ainda mais do que isso - uma vez que todo evento do calendário da Igreja tem uma aplicação à vida espiritual individual - do estado transformado em que os cristãos aparecerão no final do mundo, e em certa medida antes disso. Na pregação da futura glória que se celebra nesta Festa, a Santa Igreja conforta seus filhos, mostrando-lhes que, após as penas temporárias e as privações com que esta vida terrena é preenchida, a glória da eterna bem-aventurança brilhará; E nela mesmo o corpo dos justos irá participar.

É um piedoso costume ortodoxo oferecer frutas para serem abençoadas nesta festa; contendo nessa oferta de ação de graças a Deus um sinal espiritual. Assim como os frutos amadurecem e são transformados sob a ação do sol do verão, da mesma forma o homem é chamado a uma transfiguração espiritual através da luz da Palavra de Deus por meio dos Sacramentos. Alguns santos (por exemplo - São Serafins de Sarov), sob a ação desta graça vivificante, brilharam corporalmente diante dos homens, mesmo em vida, com essa mesma Luz incriada da glória de Deus; sendo este outro sinal das alturas informando ao que nós, como cristãos, somos chamados e o estado que nos espera - transformar-nos à imagem dAquele que foi transfigurado no monte Tabor

domingo, 20 de agosto de 2017

São Paisios na Luz da Tranfisguração


Um dia, enquanto eu saía da cela do Santo Ancião Paisios, lembrei-me de algo que me preocupava e mencionei-lhe isso: "Ancião, aquele yogi, Niranjan, conseguiu produzir uma luz." "Que tipo de luz?" ele perguntou. "Uma vez, quando estávamos todos sentados em volta dele, seu corpo repentinamente começou a liberar uma luz amarelada dourada sob a forma de uma esfera que se expandia continuamente, a qual eventualmente nos engolia todos. Eu não fui o mesmo após isso - isto alterou minha maneira de pensar. O que era essa luz? "

Sem dizer uma palavra, o ancião levantou suavemente a mão e colocou-a na minha cabeça. De repente, todo o quintal foi inundado com uma luz que brotou do ancião e podia ser vista em todas as direções. Era tão poderosa quanto um relâmpago, mas era contínua, sem mostrar nenhum sinal de falecimento. Embora tenha sido intensa, não me machucou os olhos. Pelo contrário, eu não conseguiria me satisfazer dessa luz doce, imaterial e noética. E, embora a luz fosse sobrenatural e rara - não como uma luz branca, mas mais como vidro ou água - ainda havia algo muito natural sobre ela que não me assustou, mas, em vez disso, me concedeu uma profunda sensação de alegria. Esta luz era abrangente e intoxicante, e deixou meus movimentos pacíficos e minha mente extremamente lúcida. Embora eu estivesse absorto pela visão desta luz, continuei a ver meu ambiente natural. Meus cinco sentidos continuaram a funcionar normalmente, enquanto ao lado deles outro sentido, uma espécie espiritual de visão, começou a funcionar também. Embora fosse meio-dia e o sol brilhasse, quando a luz imaterial começou a emanar do padre Paisios, a luz do sol já parecia fraca em comparação, como a do sol da tarde.

Não disse-me uma palavra, mas entendi muitas coisas. Depois, quando cheguei ao Mosteiro de Koutloumousiou, os monges podiam ver que eu estava profundamente mudado e perguntaram-me: "Você está vindo do padre Paisios, não é?" Eu acenei com a cabeça. Esta experiência deixou uma marca na minha alma que ainda posso sentir vinte anos depois, mesmo que a intensidade dos meus sentimentos diminuiu em poucos dias. Isso deixou minha alma com uma paz doce, que me mudou profundamente de uma maneira mística e oculta.

Realmente, se eu tivesse permanecido ignorante da luz que surgiu do ancião, ficaria impressionado com a luz encantadora do yogi - que, de fato, era verdadeiramente notável. Mas, depois da minha experiência, naturalmente fiz a comparação entre a luz do Niranjan e a luz do ancião. Essas duas luzes eram tão diferentes quanto uma peça de lata antiga que difere de uma barra de ouro sólido, quanto a falsidade difere da verdade e o homem difere de Deus. A luz invencível do ancião não só superou a luz do yogi, mas prevaleceu completamente sobre ela. ... as palavras não eram  suficientes para me conceder uma verdadeira compreensão, então ele havia concedido esse presente espiritual para que eu pudesse entender a diferença pela experiência.

Uma vez, quando eu estava falando com o ancião sobre as luzes que se vê durante a meditação, ele me disse: "Nós não desejamos ver esses tipos de luzes, então nos afastamos delas. Quando eu estava no eremitério no deserto do Sinai, eu deixava minha caverna à noite e ia rezar no pico vizinho ... Uma noite, quando eu caminhava a poucos passos da caverna, apareceu uma luz tão brilhante que iluminou toda a região como se fosse dia. Percebi que ela era do maligno e então dizia a mim mesmo: 'Não quero ver esse tipo de luz', e voltei para a caverna."


Por Dionísio Farasiotis 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Pão Eucarístico: Fermentado ou Ázimo?


A partir do século IX, o uso do pão ázimo tornou-se obrigatório no Ocidente, enquanto a Ortodoxia continuou exclusivamente com o pão fermentado. A questão tornou-se divisiva quando as províncias da Itália bizantina — que estavam sob a jurisdição do Patriarca de Constantinopla — foram incorporadas à força na Igreja de Roma após sua invasão pelos exércitos normandos. Neste momento, o uso de pães ázimos foi imposto aos ortodoxos do sul da Itália.

Na Bíblia, o pão ázimo é chamado de "pão ázimo", enquanto o pão fermentado é simplesmente chamado de "pão". Os judeus naquele tempo teriam entendido isso como os primeiros cristãos. Diz que "Ele tomou o pão", o que significa pão fermentado; e os cristãos, sendo primeiro instruídos pelos Apóstolos e depois lendo nos Evangelhos algum tempo depois, implementaram isso.

Na Ceia Mística, é óbvio que Nosso Senhor estava mudando as coisas, ligando a Ceia da Páscoa com a sua realização, a Eucaristia. Uma dessas mudanças, obviamente, estava usando pão fermentado em vez de não-fermentado, ou pelo menos levedado, além de não-fermentado. O mundo estava vazio e desprovido de graça diante de Cristo, como é simbolizado pela planicidade dos pães ázimos, mas depois se encheu da glória de Sua Ressurreição, como é simbolizado pelo pão fermentado. Cristo fez a mudança, e a Igreja seguiu sobre ela.

A palavra para os pães ázimos em grego é AZYMOS; seu uso aparece no Novo Testamento grego nove vezes: Mt.26: 17; Mk.14: 1,12; Lc.22: 1,7; Ac.12: 3; 20: 6; 1Cor.5: 7,8. A palavra para o pão fermentado é ARTOS, é usada 97 vezes no Novo Testamento grego. As passagens onde são relevantes para a Ceia Mística são:

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: "Tomai, comei; isto é o meu corpo". - Mt. 26:26; Mk.14: 22; Lc.22: 19; 24: 30,35; 1 Cor.10: 16,17 (duas vezes); 11: 26,27,28.

Em todos esses lugares, os escritores nunca dizem que Jesus tomou AZYMOS e abençoou, eles escrevem que Jesus tomou ARTOS, pão comum geralmente fermentado. Aqui está uma citação do livro "Bread and Liturgy" de George Galavaris:

"O mesmo método de cozimento e fornalhas foram utilizados pelos cristãos tanto para o pão de cada dia quanto para o que deveria ser usado na adoração. Deve ficar claro que (ao contrário das práticas hoje no Ocidente) nos séculos cristãos primitivos e em todos os ritos orientais ao longo dos tempos, exceto na igreja armênia, o pão usado para a Igreja não diferiu do pão comum em substância. Desde o início, o pão fermentado foi usado. Mesmo os armênios antes do século VII e os maronitas antes da sua união com Roma no século XII, utilizavam o pão fermentado. A prática de usar pães ázimos para a Eucaristia foi introduzida no Ocidente muito mais tarde. Entre os primeiros escritos estão de de Alcuíno (A.D. 798) e seu discípulo Rabanus Maurus. Depois disso, o pão do altar tomou a luz, em forma de bolacha, feito com ferros de pressão, tão comuns hoje em dia." (Galavaris, Bread and Liturgy, p. 54).

A forma adjetiva do azimito foi usada como termo de abuso pelos cristãos ortodoxos contra cristãos do Rito Latino. A Igreja Ortodoxa continuou a antiga prática oriental de usar pão fermentado para o Cordeiro (Hostia 'vítima' em latim) na Eucaristia. Depois de graves disputas teológicas entre Roma e as igrejas do Oriente, o uso latino de pães ázimo para a Eucaristia — um ponto de diferença litúrgica — tornou-se também um ponto de diferença teológica entre os dois e foi uma das várias disputas que levaram eventualmente ao Grande Cisma entre o cristianismo oriental e ocidental em 1054.

Aqui está uma citação de um sacerdote latino e professor de teologia na universidade de Viena chamado Johannes H. Emminghaus: "No rito latino, o pão para a Eucaristia foi levedado desde o século VIII; isto é, cozido com farinha e água sem fermento. Na última ceia, Cristo provavelmente tomou esse tipo de pão (mazzah), que foi interpretado no memorial da Páscoa como um "pão de aflição", o pão de pastores nômades que não possuíam pátria. Durante o primeiro milênio da história da Igreja, no entanto, era o costume geral, tanto no Oriente como no Ocidente, usar o "pão diário" normal, isto é, o pão fermentado, para a Eucaristia; as Igrejas orientais ainda o usam e geralmente possuem proibições estritas contra o uso de pães ázimos. A Igreja Latina, por sua vez, considera a questão como de pouca importância, já que no Concílio de Florença, que procurou reunir Oriente e Ocidente (1439), a diferença de costume foi simplesmente reconhecida e aceita." (Rev. Johannes H. Emminghaus, A Eucaristia: Essência, Forma, Celebração, página 161).

Aqui está uma citação de um padre jesuíta e professor de teologia na Universidade de Innsbruck:

No Ocidente, várias ordenanças apareceram a partir do século IX, todos exigindo o uso exclusivo de pães ázimos para a Eucaristia. Uma solicitação crescente para o Santíssimo Sacramento e o desejo de empregar apenas o melhor pão, juntamente com várias considerações da Escritura — todos favoreceram esse desenvolvimento. Ainda assim, o novo costume não entrou em moda exclusiva até meados do século XI. Particularmente em Roma, não foi universalmente aceito até a infiltração geral de vários usos do Norte. No Oriente, houve poucas objeções a esse uso nos tempos antigos. Não até as discussões que levaram ao cisma de 1054 tornaram-se uma das principais objeções contra os latinos.

No Concílio de Florença (1439), no entanto, foi definitivamente estabelecido que o Sacramento poderia ser confeccionado em "azimo sive fermentato pane". Portanto, como bem sabemos, os vários grupos de orientais que estão unidos com Roma continuam a usar o tipo de pão tradicional entre eles. (Rev. Joseph A. Jungmann, SJ., A Missa do Rito Romano, vol. II, pág. 34).

Em outras palavras, o uso de pães ázimos veio das florestas da Alemanha.



Padre John A. Peck

sábado, 1 de julho de 2017

A Igreja Ortodoxa e os Não-Calcedonianos: A Deificação


Há mais uma questão a considerar que é o elemento central ao conceito ortodoxo sobre a salvação: a deificação. Vou relacionar o que aprendi com um sacerdote ortodoxo que é professor universitário, este padre é fluente em árabe e estudou as posições calcedonianas / não-calcedonianas:

Os coptas estão atualmente divididos sobre o tema da deificação: por um lado há o Padre Matta al-Miskeen ("Matheus o Pobre", 1919-2006) - o pai espiritual tardio do mosteiro de São Macário em Scetis, que enfaticamente ensinou a deificação (entendendo que a comunhão deificadora é realizada em todo o Cristo, Sua divindade e humanidade). Por outro lado, o Papa Shenouda (1923-2012, papa em 1971-2012) negou a deificação chamando-a de heresia, e até mesmo rejeitou a ideia de que os Padres da Igreja ensinaram tal doutrina (para Shenouda não participamos de todo o Cristo, pois ao invés disso, participamos apenas de Sua humanidade). Assim a controvérsia entre o Papa Shenouda e o Pe. Matta era muito pública.

Pelo que eu entendo, os pontos de vista de Matta são bastante populares hoje entre muitos monásticos coptas, clérigos e leigos educados, enquanto outros seguem o ponto de vista do papa Shenouda.
O atual Papa Thawadros realmente não tomou postura nesta controvérsia, e não houve uma decisão conciliar sobre o assunto.

Por suas posições sobre a deificação e questões relacionadas, o Papa Shenouda e o Pe. Matta utilizavam fontes divergentes. O Papa Shenouda se baseou na tradição medieval copta, em árabe a qual em grande parte suprimiu a deificação. Pe. Matta clamou diretamente às fontes patrísticas gregas disponíveis para ele em traduções para línguas europeias e na cultura patrística moderna na qual a deificação está, evidentemente, presente proeminente.

Esta é certamente uma diferença significativa entre os coptas (pelo menos aqueles que seguem o Papa Shenouda), por um lado, e nós, ortodoxos calcedonianos, por outro. Existem também outras diferenças. Por exemplo, uma das conseqüências do "monofisismo" (ou, para usar o termo "politicamente correto", "miafismismo") é que os cristãos anti-calcedonianos (como os coptas) também acreditam em UMA VONTADE em Cristo (o que nós chamamos de "monoteletismo"), uma visão rejeitada por São Máximo, o Confessor e o Sexto Concílio Ecumênico.


Essas questões trazidas pelo padre e professor universitário, devem ser consideradas seriamente pela nossa Igreja Ortodoxa.

Gostaria de acrescentar um pouco sobre o Pe. Matheus o Pobre desde que ele adquiriu uma reputação no mundo de língua inglesa. Ele foi um mentor de renome para monásticos e escreveu um livro sobre orações que foi traduzido para o inglês e publicado em 2003 pela Conferência Ortodoxa do Seminário de São Vladimir: Prayer Orthodox Life: The Interior Way. John Watson, em seu artigo, "Abouna Matta El Meskeen Contemporary Mystic", fala do sucesso deste livro. "Em árabe, certamente foi um texto-chave para a espiritualidade monástica copta ... Talvez não seja demais dizer que seu livro sobre Oração Ortodoxa definiu a vida de oração de milhares de leitores de língua inglesa no início deste século". Watson continua a conta-nos sobre o fundamento da Oração Ortodoxa Vida: O Caminho Interior:

A principal fonte do Orthodox Prayer Life: The Interior Way foi um texto de língua inglesa digitada. Abouna Matta tinha empacotado o modesto manuscrito de apenas cento e vinte e duas páginas dobradas e dactilografadas em sua bolsa. Ele não abriu o documento em inglês porque ele estava com pressa para embarcar na vida solitária, que começou em 1948:

"Quando eu finalmente abri o manuscrito do peregrino inglês e descobri que continha ditos sobre a oração, meu coração saltou de alegria. Uma onda de felicidade e alegria me abalou. Como Deus trouxe este tesouro até minhas mãos? "...

O texto dactilografado foi a criação de um peregrino britânico que visitou Jerusalém. E pelo o resto de sua vida, Abouna Matta reconheceu a influência do escritor de língua inglesa e o valor central do pequeno folheto, o qual recebeu há muito tempo.

O autor do texto foi o Arquimandrita Lazarus Moore. Mais uma vez, Watson continua a falar das fontes adicionais do livro de Matheus o Pobre:

Durante os próximos cinquenta anos, Abouna Matta El Meskeen viveu junto ao muito amado texto, traduzido e digitado pelo Arquimandrita Lazarus Moore. Mas a cada década de sua vida monástica e ascética, o pai copta do deserto ocidental expandiu as principais fontes russas para um grande comentário sobre a espiritualidade ortodoxa oriental clássica. O padre Mateus classificou cuidadosamente e remodelou espiritualmente uma extraordinária série de textos inspirados desde o início do cristianismo do Oriente Médio até a Rússia ortodoxa do século XIX.

Espero que o ponto que estou tentando enfatizar esteja claro: a influência dos ensinamentos da Igreja Ortodoxa sobre o monge copta Matheus o Pobre. É impossível ter um estudo tão profundo da tradição ascética ortodoxa, como mostra, e não ser apresentado ao conceito ortodoxo de deificação. Abouna Matta El Meskeen era "um dos principais" se não "o principal" propagador da deificação entre os cristãos coptas - e como foi mencionado anteriormente, seu conflito com o papa Shenuda sobre esta questão era bastante público. E parece claro que, para se apoderar do conceito de deificação, ele teve que ir à Igreja Ortodoxa.

Então, o que podemos concluir agora? Embora da perspectiva ortodoxa, existam falhas graves em geral por parte dos cristãos coptas, especificamente em referência à cristologia / soteriologia, eles estão se aproximando de nós. Mas o fato de se aproximarem de nós foi resultado do que aprenderam da Igreja Ortodoxa - eles não se discutiram sozinhos. Então, é certo dizer: "Nós acreditamos a mesma coisa o tempo todo" ou que "Eles já são ortodoxos?"

Igumeno Gregório Zaiens