segunda-feira, 7 de março de 2016

O Homem Oculto no Coração


Todos os mandamentos da Imaculada Igreja são oferecidos ao mundo com o único objetivo de revelar o ''coração profundo'' (cfd. Sl. 64:6), o centro da Hipóstase do homem. De acordo com as Sagradas Escrituras, Deus modelou cada coração de uma maneira especial, e cada coração é Seu alvo, um lugar interno em que Ele deseja habitar e em que pode Se manifestar.
Já que o Reino de Deus está dentro de nós (cf. Lucas 17:21), o coração é o campo de batalha de nossa salvação, e todo o esforço ascético tem por fim sua purificação de toda imundície e a preservação de sua pureza diante do Senhor. ''Guarda teu coração com toda diligência; porque dele procedem todas as fontes da vida'', exorta Salomão, o rei sábio de Israel (Prov. 4:23). Estes caminhos de vida passam através do coração do homem, e portanto o desejo inextinguível de todo aquele que busca a Face do Deus vivo é que seu coração, que foi mortificado pelo pecado, seja de novo aceso por Sua Graça.

O coração é o verdadeiro ''templo'' do encontro entre o homem e o Senhor. O coração do homem ''busca o conhecimento'' (Prov. 15:14), tanto intelectual quanto divino, e não encontra descanso até que o Senhor da Glória venha habitar em seu interior. Deus, por sua vez, que é um ''Deus ciumento'' (Ex. 34:14), não vai se acomodar em uma mera fração do coração. No Velho Testamento ouvimos Sua voz clamando, ''Meu filho, dê-me teu coração'' (Prov. 23:26); e no Novo Testamento Ele ordena: ''Você deve amar o Senhor com todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com toda a tua mente, e com toda a tua força'' (Mat. 12:30). Foi Ele quem formou o coração de cada homem de um modo único e irrepetível, apesar de nenhum poder contê-lo plenamente porque ''Deus é maior do que nosso coração'' (1 João 3:20). No entanto, quando o homem consegue voltar a integridade de seu coração para Deus, o próprio Deus o fecunda com a semente incorruptível de Sua Palavra, o sela com seu assombroso Nome, e o faz brilhar com Sua presença carismática e perpétua. Ele o torna um templo de Sua Divindade, um templo que não foi erguido por mãos, capaz de refletir Sua ''imagem'' e escutar Sua ''voz'' e ''Portar'' Seu Nome (cf. João 5:37, Atos 9:15). Em uma palavra, o homem realiza o propósito de sua vida, a razão de sua vinda à existência neste mundo transitório.

A grande tragédia de nosso tempo está no fato de que vivemos, falamos, pensamos, e até mesmo oramos para Deus de fora de nosso coração, de fora da casa de nosso Pai. E verdadeiramente a casa de nosso Pai é nosso coração, o lugar onde ''o espírito da glória e de Deus'' (1 Ped. 4:14) encontraria repouso, em que Cristo pode ''ser formado em nós'' (Gal. 4:19). em verdade, só então podemos nos tornar completos, e nos fazermos hipóstases à imagem da verdadeira e perfeita Hipóstase, o Filho e Palavra de Deus, Quem nos criou e redimiu com o sangue precioso de Seu inefável sacrifício.

Enquanto formos escravos de nossas paixões, que distraem nossa mente de nosso coração e a seduz para o mundo sempre mutável e vão das coisas criadas e naturais, nos privando assim de toda força espiritual, não conheceremos o novo nascimento do Alto que nos faz filhos de Deus e deuses pela Graça. De fato, de uma maneira ou de outra, somos todos ''filhos pródigos'' de nosso Pai que está nos Céus, porque, como testificam as Escrituras, ''todos pecaram, e ficaram privados da glória de Deus'' (Rom. 3:23). O pecado separa nossa mente da contemplação vivificante de Deus e nos leva para uma ''terra estrangeira'' (Lucas 9:15). Nesta ''terra estrangeira'' ficamos privados do abraço do Pai e, nos alimentando com os porcos, nos submetemos aos demônios. Nos entregamos a paixões desonrosas e à terrível fome do pecado, que estabelecida pela força, torna-se a lei de nossos membros. Mas agora temos de sair deste inferno sem Deus e retornar à casa do Pai, de modo a arrancar a lei do pecado que está dentro de nós para permitir que a lei dos mandamentos de Cristo residam em nosso coração. Pois o único caminho que nos distancia dos tormentos do inferno e nos guia para a beatitude eterna do Reino é aquele dos divinos mandamentos: com todo o nosso ser temos de amar Deus e nosso próximo com um coração livre de todo pecado.

A jornada para fora desta terra remota e inóspita não é fácil, e não há fome mais temível do que a de um coração assolado pelo pecado. Aqueles cujos corações estão plenos do consolo da incorruptível graça conseguem suportar todas as privações externas e aflições, transformando-se em um banquete de alegria espiritual; mas a fome em um coração endurecido pela ausência do consolo divino é um tormento desolador. Não há desdita maior do que a de um coração petrificado e insensível que é incapaz de distinguir entre o Caminho luminoso da Providência de Deus e a confusão sombria dos caminhos deste mundo. Por outro lado, através de toda a história têm existido homens cujos corações estavam repletos da Graça. Estes vasos escolhidos foram iluminados pelo espírito da profecia, e estavam desse modo aptos a distinguir entre a Luz Divina e as trevas deste mundo.

Não importa o quão difícil e assustadora seja a luta pela purificação do coração, nada deve nos impedir de levá-la adiante. Temos ao nosso lado a bondade inefável de um Deus que fez do coração do homem Seu escopo e interesse pessoal. No Livro de Jó, lemos as surpreendentes palavras: ''Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração? E cada manhã o visites, e cada momento o proves? ... Se pequei, que te farei, ó Guarda dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado?'' (Jó 7:17-18, 20). Sentimos Deus, que é incompreensível, perseguindo o coração do homem: ''Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.'' (Rev. 3:20). Ele bate na porta de nosso coração, mas também nos encoraja a bater na porta de Sua Misericórdia: ''Batam, e as portas lhes serão abertas'' (Lucas 11:9-10). Quando as duas portas, a da bondade de Deus e a do coração do homem, se abrem, então ocorre o maior milagre da existência: o coração do homem se une com o Espírito do Senhor, Deus ceando com os filhos dos homens.

Nos privamos do festim da consolação de Deus não apenas quando nos entregamos à corrupção do pecado, alimentando-nos com porcos em um país estrangeiro, mas também quando lutamos de um modo negligente. '' Maldito aquele que fizer a obra do Senhor fraudulosamente'', avisa o profeta Jeremias (Jer. 48:10). Na alimentação junto aos porcos, é o diabo, nosso inimigo, que nos dá um trabalho maldito. Mas se realizamos o serviço do Senhor pela metade, nos colocamos sob maldição, pois deveríamos estar habitando na casa do Senhor. Pois Deus não vai tolerar divisão no coração do homem; Ele se agrada somente quando o homem fala com ele com todo seu coração e realiza feliz seu trabalho: ''Deus ama ao que dá com alegria'', disse o Apóstolo (2 Cor. 9:7). Ele quer que a totalidade de nosso coração se volte e se devote a Ele, e só então o preencherá com as dádivas de Sua bondade e os dons de Sua compaixão. Ele ''semeia abundantemente'' (cf. 2 Cor. 9:6), mas espera o mesmo de nós.

Desde os primeiros pensamentos que mencionamos vimos o quão precioso é permanecer diante de Deus com o coração íntegro enquanto o colocamos diante Dele. Também começamos a entender o quanto é vital a tarefa de descobrir o coração, porque isto nos permite caminhar para nosso Deus e Pai a partir do coração e sermos ouvido por Ele, e lhe darmos o direito de realizar o trabalho de nossa renovação e restauração à honra original partilhada por Seus filhos.
Enquanto um homem estiver sob domínio do pecado e da morte, entregue ao poder do mal, ele se torna cada vez mais egoísta. Em seu orgulho e desespero, e estando separado de Deus, que é bom, luta para sobreviver, mas a única coisa que conquista é uma pesada maldição sobre si e uma desolação ainda maior. Mas não importa o quanto ele esteja corrompido pela fome do pecado, o dom fundamental de ter sido criado à ''imagem e semelhança'' de Deus permanece irrevogável e indelével. Assim, ele sempre carrega dentro de si a possibilidade de ascender do reino da escuridão para o reino da luz e do fogo. Isto ocorre quando ele ''cai em si'' e a alma dolorida confessa, ''eu pereço de fome'' (Lucas 15:17).

Quando o homem decaído ''cai em si'' e se volta para Deus, ''é tempo do Senhor trabalhar'', como dizemos no início da Divina Liturgia; em dor, o homem entra em seu próprio coração, que é a maior honra reservada por Deus para o homem miserável. Deus sabe que agora pode seriamente conversar com ele, e lhe dá atenção, pois quando o homem adentra seu coração fala com Deus com conhecimento de seu estado real, pelo qual agora se sente responsável. De fato, a luta inteira do homem é feita de modo a convencer Deus de que é Seu filho, e quando O convence, então ouvirá em seu coração aquelas grandes palavras do Evangelho, ''Tudo o que eu tenho é teu'' (Lucas 15:31). E no momento em que convence Deus que ele é Seu, Deus faz com que fluam as cachoeiras de Sua compaixão, a vida de Deus se torna a sua vida. Este é o deleite para o qual Deus criou o homem em Seu plano original. Deus diz para aquele que foi bem sucedido em persuadi-lo de que é Seu, ''Toda minha vida, ó homem, é tua vida''. Então o Senhor, que é Deus por natureza, garante ao homem Sua própria vida, e o homem se torna um deus por graça.

Arquimandrita Zacarias


Um comentário:

  1. Achei fantástico o texto, gostaria de saber mais sobre o Arquimandrita Zacarias, esse texto é retirado de onde?


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