quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Durante a Maior Parte do Tempo a Terra é Plana

Cristo no centro do zodíaco, Mosteiro Dekoulou, Grécia
A ciência, a ciência moderna atual, abarcou praticamente todo o nosso olhar. Tornou-se o quadro singelo e transparente em que experimentamos o mundo, os óculos que usamos para julgar a verdade, a medida que possuímos contra a nossa experiência. Auto-evidente para a maioria, a visão material e quantitativa do universo que se desenvolveu desde o assim chamado Iluminismo se tornou ao mesmo tempo o maior porrete brandido contra a religião como também foi elevado a critério final de ''verdade'', a última e frágil barricada erigida por alguns religiosos contra um ataque incessante.


O ''mundo máquina'' da ciência é tão difundido, tão ferreamente sólido, que se retro-projeta pra toda história da experiência humana. Encontramos assim na maior parte das narrativas históricas modernas os contos ''supersticiosos'', do ''se eles pelo menos soubessem'', culminando naquela declaração perniciosa que frequentemente ouvimos: ''as pessoas costumavam pensar assim, mas agora SABEMOS QUE...'' Evidente que isso é natural. A História, tal como eles dizem, é escrita pelos vencedores. Mas eu preferiria dizer que a história não é tanto escrita pelos vencedores como modelada por eles. Pois aquilo que mudou no século XVII, durante aquele tumultuado período na Europa Ocidental, aquilo que vem rachando por quatrocentos anos e que finalmente se espatifou foi a estrutura de pensamento medieval.
As esferas cósmicas, de um manuscrito medieval

Eu gostaria de mostrar essa estrutura o máximo que puder, mas devo ser honesto com a quase impossibilidade disso. Libertar-se da caverna platônica, retroagindo para enxergar nossa própria visão de mundo tal como é, nos obriga a adentrar um lugar frequentemente muito arriscado, muito desorientador para a maioria das pessoas. Pode ser quase como cair em um abismo, perder um universo inteiro; mas para aqueles que ousaram pular sobre ele pode ser também causa de uma verdadeira ''metanoia'', verdadeira ''transcendência da mente''.

Apesar da difusão da ciência moderna, é fascinante observar como a visão de mundo, especialmente a cosmologia antiga universal e tradicional, ainda está aí, tão próxima de nós que se encontra presa entre nossa experiência humana real e nossas teorias científicas sobre o mundo. O sol, a lua e os planetas ainda se levantam no leste, a terra permanece imóvel até que um terremoto a estremeça, e o céu ainda se encontra lá em cima, estirado como um domo sobre nossas cabeças. Claro que somos ensinados que essa experiência é tão somente uma ilusão. Mas o impacto é real, principalmente para aqueles que continuam ligados à Tradição. Precisamos reconhecer o tipo de esquizofrenia em que vivemos quando dizemos coisas como ''Nosso Pai que está nos Céus'', quando olhamos ícones do Cristo descendo ao Hades, quando o padre levanta a Hóstia durante a Liturgia. O que está acontecendo? Quando dizemos que Cristo ascendeu aos Céus, para onde Ele foi? Entrou em órbita? Foi para a lua? Esse conflito atraiu teólogos protestantes como Rudolf Bultmann para um cristianismo ''desmitologizado'', que remove da religião todas aquelas coisas incômodas que não se adequam a nossa visão de mundo racional, moderna e científica.


Ícone do século XV de Novgorod

O problema com a remodelação desmistologizadora é que ela falha em perceber o próprio ''mito'' da modernidade espremido em viseiras de ferro, sua própria grande narrativa de um mundo científico material em que a felicidade humana surge pelo progresso técnico e material. Ela não leva em conta o agora tão visível efeito da perspectiva cosmológica moderna sobre a psique humana, o papel que desempenha no estado alienado do homem moderno. A desmitologização ignora como a ciência moderna contribui para o extremo abuso que o homem faz da Criação através das armas de destruição em massa, da carnificina industrial da guerra total e como estabelece o velho materialismo industrial ganancioso que leva ao desastre ecológico. O método científico é por sua forma mesma uma revolta contra qualquer avaliação qualitativa, um ataque contra qualquer teleologia no fenômeno, qualquer sentido nas coisas ou em suas mudanças. Então como pode a desmitologização servir àqueles cuja religião está ancorada na noção de que todo sentido no interior da Criação culmina no Logos encarnado?


Os dois grandes cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki. A ciência moderna revelada.

Gostaria de propor algo que pode parecer provocativo em primeiro lugar, mas que, espero, vai ajudar as pessoas a verem o mundo com olhos diferentes. Existe uma imagem crescente no horizonte recente da experiência humana, a imagem de uma família ou de um grupo de amigos todos próximos uns dos outros em torno de uma mesa ou algum outro ambiente privado, e ainda assim todos interagem com tablets, ipods e smartphones como se as pessoas ao redor não existissem. Gostaria de propor que essa imagem, essa realidade é o resultado final do modelo cosmológico de Galileu. Alguns de vocês podem achar que estou exagerando, então preciso explicar.

Tempo em família no século XXI
A cosmovisão copernicana/galilaica, ou seja, a visão de mundo heliocêntrica e seu posterior desenvolvimento na nossa cosmologia moderna de galáxias e nebulosas e buracos negros possui dois aspectos importantes. É uma visão alienante e uma visão artificial. É artificial no sentido estrito de ''arte'' ou ''técnica''. É uma visão técnica porque não pode experimentar essa visão sem a tecnologia, sem telescópios e outros aparatos. Dado que a tecnologia é uma coisa complementar, é uma veste de pele, algo que adicionamos às nossas naturezas de modo a apoiá-la fisicamente em direção do mundo material, ela acaba por nos levar assim cada vez mais fundo no próprio mundo material. Expliquei esse paradoxo em outro lugar, mas pode ser útil revisar a noção básica. A tecnologia humana, qualquer tecnologia, existe para complementar a experiência humana encarando os perigos e desafios da existência física. As roupas nos protegem do clima, os escritos gravam coisas de modo que não precisemos lembrar de todas elas, as armas nos tornam mais poderosos que nossos inimigos. Mas cada tecnologia nos leva mais profundamente á existência material porque nos confere a sensação de força material. Se posso construir uma casa ou criar roupas quentes, posso habitar em locais em que sem elas certamente morreria. Se agora tenho fósforos para fazer fogo não preciso mais aprender como fazer fogo sem eles. Já que tenho o telefone de minha mãe no celular, não há mais necessidade de memorizá-lo. Cada força é ao mesmo tempo uma fraqueza porque inevitavelmente me torna mais dependente desse poder artificial. Claro, não há nada inerentemente errado nisso. De fato, a tecnologia sempre existiu como complemento material da existência, e também as roupas, carros, ferramentas desenvolvidas pela humanidade para manter a morte à distância.

No entanto, foi somente no século XVII que os homens engajaram-se inteiramente no processo de complementação. Foi somente no século XVII que os homens padronizaram sua visão com metal e vidro, projetando suas mentes em um espaço aumentado artificialmente. Os homens sempre possuíram espaços, pinturas, esculturas, mapas artificiais, mas o telescópio e o microscópio são artefatos que tentam substituir os olhos, nos convencer que eles não são artificiais , que são ainda mais reais do que o olho. Não é só o gesto físico de olhar o mundo através de uma máquina que revela a mudança radical, apesar disso ser suficientemente simbólico, mas o fato mesmo de que as pessoas chegaram à conclusão de que o que elas vêem através dessas máquinas é mais verdadeiro do que como eles experimentam o mundo sem elas. E ainda assim a verdadeira revolução não foi simplesmente uma correção técnica, tal como é apresentado por alguns hoje em dia, não é só que, tecnicamente falando, costumávamos acreditar que a terra era um disco chapado no centro do cosmos e que agora sabemos que ela é uma bola gigante de água e poeira girando em torno de um gigantesco reator nuclear no centro de nosso sistema planetário. A mudança ocorreu no próprio núcleo da Verdade, é uma mudança de prioridade de conhecimento, uma mudança naquilo que é importante para nós, seres humanos. Essa foi a mudança. No mundo tradicional, toda a realidade é entendida e expressa de uma maneira integrada. Descrevemos fenômenos da maneira como os experimentamos porque o que importa não é tanto inventar grandes artefatos mecanicamente precisos que aumentarão nosso poder físico, mas antes a formação de seres humanos que possuam virtude e sabedoria. A resistência ao modelo heliocêntrico foi um desejo de ''salvar o fenômeno'', o desejo de expressar o mundo tal como o experimentamos porque essa expressão deve permanecer ligada a como os seres humanos vivem suas vidas e interagem com Deus e com o próximo. Desse modo, projetando-nos através de nossas máquinas em um mundo fisicamente ampliado, ''caímos'' na materialidade, inevitavelmente vivemos em um mundo mais material e materialista. E essa é a própria história moderna.

O que procede daí é meu segundo ponto, a saber, que a cosmologia moderna não é somente artificial, mas é alienante, distancia o homem de si mesmo. Uma vez que o homem tenha aceitado que aquilo que viu através de seus telescópios e microscópios é mais real do que sua experiência natural, tornou inevitável o mundo artificial, tornou inevitável ter por fim a realidade plástica, sintética, geneticamente modificada, pornográfica, interconectada e virtual em que vivemos. Quando no núcleo de sua visão, a forma de seus cosmos te leva a acreditar que a tecnologia providencia uma percepção que é mais verdadeira, mais real do que sua experiência, mais real do que sair de sua casa e olhar para o céu, então o telescópio e o microscópio logo estarão lado a lado com a câmera, a tela e o tempo e espaço acelerados da janela do carro. O modelo do metal e do vidro vai nos engolir e os seres humanos se perderão por causa de sua incapacidade de habitar plenamente o mundo.



A maioria de nós consegue nomear os planetas na direção do Sol: Mercúrio, Vênus, Terra etc. Mas quantos de nós pode sair à noite e identificar os planetas no céu à medida em que eles viajam pelo zodíaco? Quantos de nós podem identificar as constelações além da Ursa Maior, da Ursa Menor e mais uma ou duas? Recentemente fui ao planetário com meus filhos. Eles apresentaram o show com grande ovação, e explicaram que ajudava às crianças a ''experimentar'' a astronomia. Enquanto sentávamos lá olhando para a projeção no teto, viajamos pelo sistema solar, voamos através do sol, das galáxias, e nebulosas e buracos negros. Foi hipnotizante. É reconfortante saber que há pelo menos um prédio em que posso dar dinheiro para verdadeiramente viver no cosmos da ciência moderna por alguns pouco minutos. O pior é que na maior parte do tempo vivo apenas pela metade naquele mundo. Uma grande parte de mim ainda se arrasta em uma Terra imóvel, com o sol, as estrelas viajando pelo domo do Céu. Sou ensinado de que a verdadeira imagem não é essa da Terra aqui embaixo e do Céu lá em cima que experimento no dia a dia, mas um retrato de uma bola flutuando no vazio, uma visão que nunca tive por mim mesmo, a não ser que olhe um figura ou uma tela, exceto se eu for afortunado o bastante para ser levado em uma grande máquina de metal e vidro que vai me proteger de um ambiente em que eu morreria instantaneamente sem sua proteção. É essa a Verdade? É essa a Sabedoria? É essa a Virtude?


A nebulosa de caranguejo retirada do telescópio Hubble.

Agora, se a partir daí você teve a impressão de que estou negando a acurácia técnica da cosmologia moderna, significa que não fui capaz de te retirar o suficiente de sua moldura para que você pudesse enxergar. A cosmologia moderna é de fato útil para enviar satélites e naves espaciais, para enviar algumas poucas pessoas para colonizar Marte. E até mesmo durante a Idade Média os acadêmicos acreditavam que a Terra era esférica. Múltiplas cosmologias podiam co-existir com funções e papéis diferentes, algumas mais filosóficas e humanas e outras mais matemáticas e técnicas. Mas a maior parte do tempo em nossas vidas, a Terra é plana. Durante a maior parte do tempo, o Céu está lá em cima e a Terra aqui embaixo, e ''a maior parte do tempo'' significa por exemplo aqueles instantes em que interajo com minha família, minha sociedade e meus inimigos. E além disso tudo, se quisermos entender a religião e seu simbolismo, se desejamos entender a Bíblia, ou ícones, ou a arquitetura das igrejas, devemos nos ancorar no mundo da experiência humana, pois é nele que podemos amar nosso próximo. Devemos nos forçar a acreditar que o sol se levanta a cada manhã, ou que a lua cresce e mingua; e honestamente não vai ser tão difícil, porque, apesar de Galileu e Newton e Einstein, estou seguro de que encontraremos alguma Verdade na aurora rosada de amanhã.

Traduzido de: http://www.orthodoxartsjournal.org/most-of-the-time-the-earth-is-flat/

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